Oi, amigos! Tudo bem? Como prometido, cá estou eu trazendo mais uma indicação sonora que eu adoraria que você conhecesse ou, caso já tenha ouvido, espero que aproveite pra sacar um pouco mais da história dele. Com vocês: André Prando!!

Subterrânea: Quem é André Prando?

André Prando: Sou eu. Lembro de uma aula de religião que assisti no ensino médio em que o professor, pastor/teólogo e graduando em Filosofia, fazendo referência sobre alguns de seus estudos, nos indagou sobre quem, substancialmente, éramos. “Quem é você?” – André – “Não, esse é seu nome. Quem é você?” – Sou estudante, gosto de… “Não, essa é sua ocupação e o que você gosta. Quem é você?”. Na época, ainda menino e já um pouco caótico das ideias, fiquei encafifado e lembro de ter escrito algumas inquietações, já escrevia bastante. Hoje eu posso responder, ainda caótico, que sou o nome que carrego, André Prando, sou a idade que tenho, 25 anos, sou minha ocupação e meu combustível de vida, músico, compositor, cantor, instrumentista, sou os sentimentos que prezo, amor, caos, verdade, dentre tantas outras coisas. Sou um bocado de coisa encarnado numa pessoa que vive a música e o mundo com tudo o que há.

https://www.youtube.com/watch?v=_JyEfdtnLMY

Subterrânea: Como você vê a música autoral fora dos grandes centros tipo Rio de Janeiro e São Paulo? Você tem focado mais em tocar em outros lugares ou se fortalecer como artista local?

André Prando: Acho que, sem querer querendo, essa pergunta se direciona exatamente pra onde eu vivo (também), já que moro em Vitória/Espírito Santo, que, apesar de ser capital, não é um grande centro tipo RJ e SP.

Então, falando inicialmente daqui, eu vejo a música autoral como uma maravilha crescente AINDA buscando o seu lugar na vida das pessoas. “O problema é muita estrela pra pouca constelação”, diria Raulzito. Temos ótimos trabalhos sendo realizados, mas as pessoas não tomam conhecimento, não têm acesso natural, o fluxo não permite. As rádios não tocam, os investidores não se arriscam, ninguém disse que o independente seria fácil.

Não é todo lugar que tem uma cultura enraizada de valorizar o que se produz na própria terra e isso reflete na dificuldade de disseminar a arte independente também. MG dá aula sobre isso, MG venera a música mineira e isso, consequentemente, ecoa fora de lá. No fim das contas quem não venera aquela maravilha? É realmente lindo. E assim vai indo, Recife também me toca como um lugar com a cultura bem forte… Nordeste em geral. Enfim, muitas vezes as pessoas (não só os artistas) buscam os grandes centros em busca de oportunidade, um público maior, expansão mesmo, acho fundamental e natural.

Essa pergunta é bem complexa, não gostaria de ficar dando um resenhão a respeito (rs). Então, partindo pro ponto seguinte, eu trabalhei minha arte de forma bem enfática na minha terra, mas sempre visei novos horizontes. Foi uma escolha minha, antes de me apresentar na selva lá fora, quem sou eu na minha tribo? Hoje eu tenho um trabalho relativamente (sempre) bem respeitado no Espírito Santo e aos poucos um público que me aguarda em outros estados. Agora, depois de fortalecido como “artista local” (como você chama), a missão é continuar circulando com minha música em outros locais, sem dúvida. Já tenho feito alguns shows pelo sudeste e bora indo ao infinito e além, com paciência e na guerrilha. Sei que tenho a energia e vibração de muita gente que me acompanha, torce por mim e isso é MUITO foda, muito gratificante. Agradeço, inclusive, a todos!

Subterrânea: Explica pra gente esse conceito de “beleza do feio”?

André Prando: Basicamente é uma sugestão a contemplar as coisas por uma perspectiva diferente. O que é o belo? Feio pra quem? O conceito de “belo” por si só, na História da Arte é um caos só. A intenção é relativizar algumas ideias para alcançarmos uma melhor tolerância, melhor compreensão e, consequentemente, menos mal, menos preconceito, menos ódio. O “Estranho Sutil” tem uma poética que define bem a minha proposta conceitual de chegar num determinado ponto por abordagens “tortas”. Quero que as pessoas dêem vida às fantasias, ao surreal, aos devaneios, ao estranho, enfim… Tudo como uma coisa natural. Acho que é meio por aí. Tem que tá moleque. O terceiro olho (utilizado na capa do disco) tá ligado a essa capacidade intuitiva de percepção às sutilezas.

https://www.youtube.com/watch?v=6JoHctrm7-I

Subterrânea: “Última Esperança” é uma música inédita do Sérgio Sampaio e você teve autorização para gravá-la nesse seu último álbum. Imagino que isso seja uma honra e um reconhecimento indescritível pra qualquer artista. Como é a sensação de espalhar essa música por aí?

André Prando: Além da alegria e a realização de um sonho, pra mim é uma honra muito grande mesmo poder contribuir para o resgate da obra de um artista tão singular que é Sérgio Sampaio. Sampaio é uma grande referência pra minha linguagem, minha música, me identifico muito e aprendo com sua obra constantemente.

“Última esperança” foi uma música que não tinha condições de acontecer na época. Do que se sabe, quando Sérgio tentou executá-la na década de 70 em SP, quase foi expulso do palco pelo público que não aceitou a canção que retratava a tragédia recente do Ed. Joelma. É uma canção muito forte que, apesar do episódio inspirador ser uma fragilidade e tanto, traz outros assuntos e discussões. Ora, uma música não fala só sobre uma coisa, né? A música faz referência ao sucesso “É proibido fumar” (parceria do Tremendão (Erasmo Carlos) e do ídolo mór de Sérgio, Roberto Carlos), fala de loucura, fala do horror dos julgamentos que Sérgio sofria, fala de censura… É bem intenso. É um clima que trabalhamos para existir na gravação e, ainda mais, no clipe. Fico muito feliz de trazê-la à tona!

Subterrânea: Indique pra gente um artista independente que você anda ouvindo =)

André Prando: Tem um cara/banda que admiro muito o trabalho que é o Fepaschoal. Também é capixaba, tem um disco já lançado e vai lançar um novo agora em 2016. Já dividimos o palco algumas vezes, dividiremos mais e tem sonzasso afrobeat/dub/rock/psicodélico muito único. Vale a pena!

https://www.youtube.com/watch?v=EFViel18KqQ

 

Entrevista por Mariana Bartz, caça talentos da Subterrânea 😉
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